Metonímias do afeto

Publicado: 17 diciembre 2020 a las 4:00 pm

Categorías: Artículos

Por: Libéria Neves

Reminiscências…, de acordo com os dicionários, diz do “retorno à mente de uma ideia, de um fato ou de uma experiência; recordação”. Nesse sentido, o documentário “Reminiscências e Afetos”, produzido no seio das ações do Projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil, captura, registra e mostra, pela via dos recursos audiovisuais, a narrativa de D. Silvinha (apelido carinhoso da primeira filha de uma família Silva constituída no interior da Bahia), carregada de afetos, tecida no fio da memória.

_E aqui é pra contar o nascimento da Lúcia, né? Ou não? É pra começar lá desde quando eu casei? Eu nasci no alto sertão da Bahia, numa pequena cidade chamada Rio Preto. Passou por vários nomes, terminou em Santa Rita do Rio Preto, porque lá passa um afluente do Rio São Francisco. Não me lembro agora onde esse afluente vai desaguar…

Dona Silvinha, provocada a contar sobre sua história com a primeira filha – uma criança “excepcional” que viveu para além das perspectivas médicas –, deságua no correr da vida, a partir da nascente – painho & mãinha, que foram com os filhos para a cidade de Ilhéus, quando estes ainda eram pequenos. Entre olhares que miram para dentro e palavras muitas vezes substituídas por intenções em silêncios, esta senhora percorre uma história de 85 anos de vida, elegendo pontos que ligam o início aos episódios de ontem, ilustrados pelas fotos na parede, nos porta retratos pela casa, ou soltas de algum lugar, com datas e legendas.

Painho & mãinhia; Ilhéus; colégio interno; o flerte com aquele que seria seu companheiro até 3 meses antes das filmagens; a primeira filha, Lúcia, tão desejada e amada, que apresentava uma série de comprometimentos cognitivos e sensoriais, talvez provocados por um parto difícil, a fórceps, quem sabe(?); e os filhos seguintes, doutores, os quais lhe proporcionaram netos.

O estímulo ao desenvolvimento de Lúcia foi o que motivou D. Silvinha e seu companheiro a mudarem-se com a família para Belo Horizonte, naquela época, primeira metade do século XX, cidade pioneira na educação e tratamento das crianças excepcionais. Em especial o Instituto Pestalozzi, uma das ações da Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais (SPMG), criada na capital em 1932, a partir da idealização de Helena Antipoff, psicóloga russa que veio para o Brasil em 1929 e assumiu funções na Escola de Aperfeiçoamento de Professores em BH, bem como dirigiu o Laboratório de Pesquisas desta instituição¹. Antipoff contribuiu no período de grandes reformas da educação pública, conduzindo o processo de homogeneização das classes escolares, configurando as classes especiais previstas no Regulamento do Ensino Primário (1927), estabelecendo a psicologia científica e suas contribuições na educação, sobretudo daqueles que escapam à noção vigente de normalidade.

  1. Silvinha, que tinha curso normal concluído no internato vivido numa das melhores escolas do estado da Bahia, complementou sua formação em Belo Horizonte para poder ser professora no Instituto Pestalozzi, onde permaneceu mesmo quando Lúcia foi encaminhada, em função do avançar da idade, para frequentar a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – a APAE , fundada em BH em 1961.

A busca por recursos para a filha atravessa episódios importantes da história da Educação Especial em MG e da história da psicologia da educação, as quais apenas figuram como cenário remoto do protagonismo respeitoso entregue àquilo que esta narradora escolheu para contar e do modo como escolheu, a partir das reminiscências que persistem como lembranças.

As palavras da memória, as quais se destacam ao longo da narrativa, trazem o amor e o desejo sobre a filha, desde sua gestação até o fim de sua presença física na vida da família constituída por D. Silvinha. Lúcia chegou a perder a visão; e apresentava crises constantes com comportamentos agressivos, os quais eram cessadosapenas com o simples chamado carinhoso do pai – Lúcia!!! – e, posteriormente também dos irmãos. Sem diagnóstico consensuado, ultrapassou em 3 décadas a previsão de sua expectativa de vida prevista pela ciência médicana época. Quem sabe?

Um documentário pode ser pensado como um gênero cinematográfico que visa a apresentar uma realidade – fidedigna ou não – por meio da tela. Utilizando-se, para isso, de arquivos históricos, imagens, entrevistas, de modo a ser construído ao longo do processo de sua produção e edição². Apesar de partir de um roteiro, não se sabe exatamente aonde irá chegar, tendo em vista a presença da surpresa, da descoberta, do inusitado ou mesmo da tomada das rédeas por parte do desejo daquele que apresenta a realidade a se documentar.

Isso é o que se vê quando a câmera passa a ser um interlocutor diante daquilo que D. Silvinha quer fazer, dizer e mostrar – o interior da casa, a mesa posta para a equipe de filmagem, o bolo feito por Catarina, as fotografias. Nesse momento, buscando registrar os episódios e as imagens metonímicas que condensam aquilo que para ela vale a pena narrar – os afetos.

Libéria Neves

Doutora em Educação pelo programa de Pós-graduação em “Educação: conhecimento e inclusão social” da Universidade Federal de Minas Gerais. Mestrado em Educação pela mesma instituição e programa. Pós-Graduação lato sensu em Cultura Popular pelo Unicentro Newton Paiva. Psicóloga graduada pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, Especialista em Psicologia Escolar e Educacional. Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal de MG. Professora do Mestrado Profissional Educação e Docência (PROMESTRE) UFMG. Membro pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psicanálise e Educação (NIPSE) e colaboradora no Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Educação Inclusiva e Necessidades Educacionais Especiais (GEINE) – ambos vinculados à FaE UFMG. Vinculada à Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), integrante do GT Psicanálise e Educação. Atriz profissional, integrante da Cia. Três Calados de Investigação Criativa.

Fonte do artigo: 

http://pensaraeducacao.com.br/observatorio/2020/12/07/metonimias-do-afeto