Educação para a coletividade

Publicado: 1 diciembre 2020 a las 6:30 pm

Categorías: Artículos

Por: Eduardo José Machado Monteiro

Homem Anando Na Rua – Pxhere

Durante um grande período da nossa história republicana, a escola pública era para poucos e soberana entre todas. Mas as escolas, nesse tempo nãuniversais, não eram para todos, mesmo sendo públicas, e eram poucas.

Com o processo de desenvolvimento e democratização do país, começamos a ver uma escola pública para todos, universal”. Hoje temos 98% das crianças e jovens em idade escolar matriculados nas escolas públicas espalhadas pelo país.

No entanto, escolas para todos não quer dizer educação para a coletividade. Se observarmos a história da própria escola pública, perceberemos que ela não começa para todos. Era principalmente para a elite socioeconômica dos diversos municípios que possuíam escolas.

Observemos as escolas internamente. Em uma aula de Sociologia, discutindo o processo de formação da identidade brasileira e destacando características que nos distingue de outros países, um aluno, com intuito de exemplificar essas diferenças, nos conta uma história que acontecera em sua casa. A família dele recebia um rapaz proveniente da Suíça. Ele, aluno, em um domingo pela manhã, resolveu bater uma vitamina no liquidificador, e assim começou a fazer, quando o suíço, de outro ambiente da casa, foi às pressas para a cozinha e disse que não deveria bater a vitamina, pois iria fazer barulho. O aluno interrompeu o liquidificador e perguntou qual o problema de se fazer barulho. O suíço respondeu que incomodaria os vizinhos. E completa afirmando ser na Suíça proibido fazer barulho aos domingos, pois era o dia de descanso de todos.

A história terminaria aí se não fosse a pergunta do aluno: “e se fizer barulho, o que acontece?” O suíço então responde: não sei, nós nunca fizemos barulho aos domingos.”

Obviamente o rumo da aula se transformou. Alguns alunos achando um absurdo aquele rigor todo, afinal de contas era apenas uma vitamina batida rapidamente num liquidificador. Outros vangloriaram a civilidade suíça com um quê de inveja. O professor então fez duas observações. A primeira referindo-se à preocupação com a coletividade. Domingo é o dia do descanso, fazer barulho atrapalha, incomoda o descanso do outro. Aqui, não só o domingo, mas todo o final de semana é o momento de relaxar, música alta no som do automóvel parado na rua, brincadeiras de crianças, adolescentes e jovens nas ruas sem preocupação com o sossego dos vizinhos, entre tantas outras situações que desconsideram o outro e pensam apenas em si mesmos.

A segunda observação do professor refere-se à pergunta do aluno ao suíço. “O que acontece se fizer o barulho?” Como está enraizado na nossa cultura a ideia de que se não tiver penalidade, ou maiores consequências, então pode-se fazer. O conhecido “jeitinho brasileiro”, que dá solução para tudo.

A escola nãé nada mais que um instrumento de formação e confirmação da sociedade que vivemos. Diante disso, podemos ver que a escola não faz outra coisa a não ser reproduzir o que essa sociedade lhe impõe. E a sociedade brasileira elitista, desigual, de privilégio para poucos, racista, entre outras características, não teria em suas estruturas escolares outra postura que não fosse individualista.

O processo individual de aprendizagem do aluno nas escolas é prioritariamente valorizado. Mesmo quando se trabalha em grupo, não há uma intenção voltada para a coletividade. A preocupaçãé a aprendizagem do aluno, do indivíduo.

Explorando ainda a aprendizagem, podemos perguntar: o que faz o aluno com o objeto aprendido? Não há uma intenção coletiva, mas apenas individualista. Aprende-se para fazer uma prova, para fazer um teste que qualificará para outro segmento (vestibulares, ENEM). Todo aprendizado é voltado para o indivíduo. Um aluno tem que ser qualificado em tudo, em todas as disciplinas.

O silêncio sepulcral da maioria das escolas durante o período de funcionamento, em que os alunos se encontram em aulas, nos mostra também como as regras são imposições para garantir o aprendizado do indivíduo concentrado e atento.

Não nos organizamos, enquanto escola, para a coletividade. A escola não está voltada para o coletivo, não tem a dimensão da solidariedade, não se preocupa com o outro, tanto aquele próximo, e principalmente quanto aquele distante. Muitas vezes coloca alunos contra alunos, compara-os, denigre a imagem de uns e valoriza outros.

Não estudamos matemática, história, geografia, biologia, química, sociologia, filosofia, ou seja, todas as disciplinas para repensarmos nossas atitudes, para construirmos uma sociedade futura melhor.

Coletividade nãé um anseio da nossa sociedade, nem bem estar social, nem respeito ao outro. Nos últimos tempos, principalmente nesse período da pandemia, está mais do que claro que o outro e a coletividade nãé a preocupação da nossa sociedade. “Cada um por si e salve-se quem puder.”

Precisamos construir uma Escola que seja pautada no coletivo, onde a aprendizagem se faça em grupo, a partir de projetos, com uma base ética sólida, de forma democrática, objetivando a melhoria da sociedade, com a participação de todos, alunos, professores, funcionários, pais, administrativo e comunidade.

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo 1ºTodos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.” Para isso necessitamos uma sociedade equânime, diversa, justa, democrática, ou seja, em que a coletividade esteja em primeiro lugar.

Nessa sociedade, a Escola deve proporcionar uma educação em que “Todo ser humano tem deveres para com a comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.” (Artigo 29 – Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Fonte do artigo:

http://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/educacao-para-a-coletividade

Imagem de destaque: pxhere